Setembro amarelo: como cuidar de pessoas com depressão?

Setembro amarelo Imobiliária Habitar Psicossocial UFV
11 minutos para ler

O movimento Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização e prevenção ao suicídio. Durante este mês, cores amarelas são espalhadas por espaços públicos, e diversos eventos promovem momentos para debater sobre a importância dessa discussão.

Falar de suicídio é um assunto delicado, mas não deixa de ser uma questão de saúde pública. Dados da Organização (OMS) revelam que o Brasil é o segundo país das Américas com maior número de pessoas depressivas, equivalentes a 5,8% da população.

Em tempos de pandemia, este número tem aumentado drasticamente. Segundo estudo da Universidade de São Paulo (USP), realizado em onze países, o Brasil lidera os casos de depressão (59%) e ansiedade (63%).

De fato, o cenário atual acentua casos de pessoas já diagnosticadas e adoecem outros. Nesta conjuntura, em que a solidão, o medo e a angústia viraram rotina de muitos, contar com amigos e família é essencial para a nossa saúde e bem-estar.

Uma rede de apoio faz toda diferença, entretanto, o estigma criado em cima dessas doenças acabam afastando as pessoas da discussão e ninguém sabe ao certo como conviver ou lidar com as pessoas ao nosso redor que sofrem com elas.

Pensando nisso, neste artigo, conversamos com a Mariana Nascimento, psicóloga especialista em Psicanálise, Laço Social e Saúde Mental, que atua na Divisão Psicossocial da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e em consultório particular.

Mariana nos ajuda a entender melhor como funcionam estas doenças e nos dá dicas práticas de como conviver com amigos e familiares que possuem essa condição de saúde. Buscar qualidade de vida das pessoas ao nosso redor é o maior ato de amor que podemos fazer.

Acompanhe a leitura com carinho, e compartilhe para que mais pessoas possam se conscientizar e ser uma boa companhia para aqueles que amam. Veja!

O que são transtornos e doenças mentais?

Mariana explica que é importante destacar que a vida humana tem seus momentos de dificuldades e desafios que geram algum sofrimento e emoções consideradas desagradáveis na sociedade contemporânea, tais como a tristeza e o medo. “Percebemos que a palavra depressão e outros conceitos psicopatológicos invadiram a linguagem cotidiana. Muitas vezes, tem sido utilizada de maneira distorcida para designar um estado afetivo normal, como a tristeza. Por exemplo: uma pessoa diz “hoje estou deprimida” para nomear que não acordou bem, que está triste”, diz.

A psicóloga reforça que a tristeza é uma reação esperada às situações de perda, rompimento, fracasso e outras adversidades da vida. Entretanto, por mais que seja uma emoção normal, podemos interpretá-la como um sinal de alerta de que a pessoa precisa de apoio e companhia.

“Dito isso, podemos pensar em alguns pontos de distinção entre um sofrimento esperado diante de determinada situação e um quadro de adoecimento psíquico com sintomas mais intensos e prolongados. Por exemplo, é esperado que uma pessoa que recebeu a notícia de ter uma doença grave apresente sofrimento subjetivo, como tristeza, medo, angústia, culpa… A reação não deve ser tomada como um sintoma a ser tratado com medicação, visto que é pertinente ao momento vivenciado.

O sofrimento subjetivo deve ser escutado, acolhido e reconhecido como uma reação legitima do sujeito. Nesta situação, é recomendado abrir um espaço para a palavra, na qual o sujeito possa falar de si e de suas emoções como o primeiro passo para elaboração e compreensão do seu adoecimento. A posição de escuta e acolhimento pode ser desempenhada pela equipe de saúde, familiares e amigos, ou por alguém mais especializado como os profissionais de saúde mental (psicólogos, psicanalistas, psiquiatras…)”, diz Mariana.

Ela continua que a partir deste mesmo exemplo, podemos pensar que algumas pessoas podem desenvolver sintomas psíquicos considerados mais graves, que necessitará de intervenção especializada. A avaliação do caso definirá qual é o tratamento mais indicado, podendo incluir o acompanhamento psicológico, acompanhamento psiquiátrico ou outras intervenções terapêuticas no campo da saúde.

É importante sempre lembrar que cada sujeito vai lidar com as dificuldades de maneira muito singular, a partir de sua história de vida e dos recursos psíquicos que possui.

Quais são os sintomas mais comuns de pessoas em quadros depressivos?

A psicóloga responde que quando convivemos com alguém é possível perceber alguma mudança no humor e atitudes da pessoa que difere do habitual. Contudo, a mudança pode passar despercebida com as demandas do dia a dia ou ser escondida\camuflada pela pessoa em sofrimento. Por isso, é sempre importante demonstrar abertura genuína para conversar sobre os momentos difíceis da vida.

“Ninguém é feliz o tempo todo e não é necessário ter vergonha de estar passando por uma fase difícil. Ser escutado e apoiado nessa fase auxilia no enfrentamento da dificuldade e diminuição do sofrimento. Sobre a depressão, cabe destacar que existem diferentes categorias diagnósticas que não serão esmiuçadas aqui. De maneira resumida, a doença provoca alterações em diversos aspectos da pessoa – psíquicos, fisiológicos e comportamentais“, diz.

Os principais sintomas são:

  • Humor deprimido, caracterizado por tristeza e desânimo persistentes, autodesvalorização, sentimento de culpa e de inutilidade. Algumas pessoas podem apresentar humor irritadiço e raiva;
  • Perda de interesse e prazer nas atividades, antes consideradas agradáveis;
  • Fadiga ou perda de energia;
  • Diminuição da capacidade de pensar, de se concentrar ou de tomar decisões;
  • Alterações do sono (insônia ou hipersonia);
  • Ganho ou perda de peso significativo; diminuição ou aumento do apetite;
  • Redução do interesse sexual;
  • Podem ocorrer pensamentos de morte ou suicídio, tentativa de suicídio ou um plano específico para cometer suicídio.

Como podemos observar nos sintomas apresentados, a depressão pode ser manifestada de diferentes maneiras, dificultando a compreensão da população acerca do quadro. Sendo assim, a psicóloga sugere que os familiares e amigos possam se atentar para mudanças de comportamentos e atitudes que despertem preocupação sobre o estado emocional da pessoa.

“Devido ao estado depressivo, a pessoa sente-se, com frequência, um peso para os familiares e amigos. Não acreditam mais em sua melhora e no retorno de sua capacidade de sentir prazer e alegria na vida. O retraimento social, crises de choro, falas carregadas de expressão de culpa e autodepreciação “sou um peso para todos” “não consigo fazer nada”, “nem sei porque ainda estou aqui” podem ser um alerta para aproximação e suporte. Além disso, a depressão pode estar associada a outros quadros de adoecimento mental. É relevante ressaltar a necessidade de avaliação de um profissional de saúde para o diagnóstico e tratamento”, diz Mariana.

Sobre a ansiedade, a psicóloga destaca que é importante seguirmos essa linha de raciocínio para diferenciar uma vivência emocional normal de um caso de adoecimento mental.

“A especialista explica que a ansiedade é uma reação que toda pessoa pode experimentar diante de algumas situações, como falar em público, entrevistas de emprego, exames de saúde entre outras. A ansiedade causa um estado de nervosismo, medo, apreensão e preocupação. A intensidade dos sintomas e a duração dos mesmos são importante parâmetros para a diferenciação entre ansiedade comum da patológica.

Algumas pessoas vivenciam esta reação de maneira mais intensa e frequente, impactando consideravelmente a saúde e execução das atividades cotidianas. Aqui, novamente, teremos uma variedade de sintomas característicos da ansiedade. Entre os sintomas físicos podemos destacar: tremores, sensação de falta de ar, sudorese, taquicardia, náuseas, diarreia, entre outros“, relata.

O que fazer quando presenciamos alguém próximo nesta situação?

Além da abertura de um espaço para que a pessoa em sofrimento possa se expressar e receber apoio, explica Mariana. Neste momento, continua, é importante ter disponibilidade para escutar o que o outro tem a dizer, abrindo mão da posição de solucionador de problemas, pois tal posição pode impedir o acolhimento e provocar falas que desmerecem o sofrimento vivenciado pela pessoa, como: “isso vai passar”, “você tem tudo não pode se sentir assim”, “isso é falta de Deus”. É muito importante escutar sem juízo de valores sobre o que outro sente e fala.

“Após o acolhimento, você pode evidenciar o seu desejo de ajudar. Caso não saiba como proceder, você pode procurar alguém que saiba. Os serviços de saúde podem ser buscados para orientação e apoio. Você pode agendar uma consulta e ir com a pessoa. A ajuda poderá ser buscada na rede pública de saúde como os postos de saúde, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e hospitais”, fala.

Mariana complementa dizendo que percebe que as pessoas possuem uma enorme dificuldade de escutar o amigo em sofrimento, por quererem livrar a pessoa amada da situação, acreditam possuir o dever de solucionar os problemas. Muitas vezes a pessoa se frustra ao perceber que não conseguirá resolver a situação tão rapidamente assim.

“Adotar a posição de escuta e acolhimento ajuda (e muito) o amigo a colocar em palavras o seu sofrimento e, a partir disso, inventar suas saídas. Compartilhar as emoções e sofrimento com pessoas que nos transmitem confiança ajuda a regular esses sentimentos. É importante reconhecer o tempo subjetivo de cada um e que algumas situações só poderão ser enfrentadas pela pessoa, mas você certamente pode estar ao seu lado durante o processo”, diz.

Como as pessoas podem aprender mais sobre e doenças mentais e quais são os maiores mitos sobre?

“Atualmente, o tema da saúde mental tem sido mais abordado e tem muita coisa boa disponível na internet. A busca de informações em sites confiáveis, a participação em palestras e cursos podem auxiliar. Procure assistir conteúdos elaborados por profissionais de saúde com certificação e comprometimento cientifico”, explica a psicóloga.

Sobre os mitos, ela diz que é possível identificar que o adoecimento mental ainda é mal compreendido em inúmeros contextos, situação que dificulta a busca de ajuda e tratamento adequado. “Para simplificar, posso afirmar que o adoecimento mental não é frescura e mimimi, não é falta de Deus, não é falta de força de vontade, não é pra chamar atenção. A pessoa com doença mental merece ser tratada com dignidade e respeito para que possa acessar o tratamento e continuar a sua vida”, diz.

Qual a importância dos medicamentos nos tratamentos e o que pode ser uma atividade alternativa que possa ajudar?

Mariana ressalta que o uso das medicações é importante para a remissão de sintomas e estabilização do quadro mental dos pacientes que possuem uma doença mental. Entretanto, é extremamente importante a avaliação do caso a caso para não medicalizar sofrimentos da vida que podem ser solucionados de outra maneira.

“O sintoma psíquico carrega uma mensagem para o sujeito de que algo não vai bem em sua vida. Mensagem esta que precisa ser escutada. Neste sentido, considero a terapia eficaz em muitos casos”, diz. “Além disso, é necessário que cada sujeito encontre atividades e espaços que o auxilie a lidar com suas questões e propicie momentos de relaxamento. É importante citar que manter hábitos de vida saudáveis tem impactos positivos na saúde mental (atividade física + alimentação balanceada + rotina de sono regular)”.

Alternativas ao nosso alcance

Vale ressaltar a iniciativa do Centro de Valorização da vida (CVV), que desde 1962 realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias. Basta ligar 188.

Quer mais dicas como essas? Siga-nos no Facebook, no Instagram e no YouTube e acompanhe nossas publicações!

Você também pode gostar

Deixe um comentário